Em 25 de maio, o Vaticano publicou a primeira encíclica do Papa Leão XIV desde sua posse, dedicada integralmente à inteligência artificial. O documento intitulado “Magnifica Humanitas” inclui dados, algoritmos e plataformas digitais na categoria de “recursos comuns” e exige maior regulamentação das grandes empresas de tecnologia.
Os dados são considerados um bem comum
O documento afirma que os dados derivam da participação coletiva de numerosos indivíduos e grupos, não devendo ser monopolizados por poucas empresas por longos períodos nem tratados simplesmente como ativos privados passíveis de venda. A encíclica também enfatiza que a tecnologia não é moralmente neutra, pois os algoritmos incorporam as orientações de valor, cegueiras e incentivos de interesse dos projetistas, financiadores e implementadores.
Em torno da governança da plataforma, o documento não se limita à regulamentação top-down. A Santa Sé propõe que se promova a transparência algorítmica, auditorias independentes da comunidade e que se conceda aos indivíduos o direito prático de desafiar legalmente sistemas automatizados, especialmente em áreas como pontuação de crédito, seleção de candidatos a emprego e avaliação de risco judicial.
Opor-se a decisões sensíveis serem totalmente delegadas a máquinas
A encíclica afirma que sistemas de inteligência artificial não possuem experiência corporal, nem sentem dor, alegria ou compaixão, portanto não conseguem formar compreensão humana verdadeira. Eles podem simular expressões de empatia e gerar linguagem aparentemente plausível, mas isso não equivale à compreensão real do conteúdo gerado.
Com base nesse julgamento, o documento se opõe à entrega de decisões sensíveis, como contratação, condições de crédito e pontuações de risco judicial, a sistemas automatizados. A Santa Sé considera que os resultados fornecidos por máquinas, embora pareçam objetivos, ainda contêm escolhas e vieses pré-programados pelos desenvolvedores.
Executivos da Anthropic participam da conferência de lançamento
Na conferência de imprensa do Vaticano naquele dia, Christopher Olah, cofundador da Anthropic e responsável pela pesquisa de explicabilidade, compareceu junto com dois cardeais e estudiosos teológicos. Ele afirmou que grandes laboratórios de IA operam dentro de um conjunto de incentivos e restrições que, às vezes, entram em conflito com “fazer o correto”, tornando essencial a supervisão externa por parte do governo, instituições religiosas e da sociedade civil.
Ele também mencionou que, se a IA causar substituição em larga escala de empregos em curto prazo, as respostas relacionadas se tornarão uma questão moral de peso histórico. A encíclica também oferece uma declaração mais forte: se o controle sobre dados e capacidade de processamento permanecer concentrado nas mãos de poucos, apenas buscar uma “IA mais ética” não é suficiente.
O Vaticano já ativou o mecanismo de coordenação interna
Esta encíclica contém 245 parágrafos e foi assinada em 15 de maio, o mesmo dia em que se comemorou o 135º aniversário da encíclica Rerum Novarum, um texto fundamental da doutrina social da Igreja Católica sobre os direitos do trabalho.
Antes disso, Leão XIV já havia definido a IA como uma importante questão ética durante seu mandato. O Vaticano também aprovou, em 16 de maio, a criação de um novo comitê interno de IA, envolvendo sete departamentos, responsável por coordenar os futuros esforços de governança da IA da Santa Sé.
