Yat Siu tem uma mensagem para a Europa: se você não construir sua própria infraestrutura de stablecoin, a moeda de outra pessoa governará sua economia. O presidente executivo da Animoca Brands ministrou uma palestra no Global Digital Asset Forum em Viena em 19 de maio, apresentando o que ele considera um desafio financeiro existencial para o continente.
Seu argumento central é simples. As stablecoins vinculadas ao dólar americano estão crescendo tão rapidamente que, sem uma alternativa crível denominada em euros, a Europa pode acabar realizando grandes partes de seu comércio digital na moeda de outra pessoa.
O elefante de $33 trilhões na sala
Siu apontou para uma projeção que já mencionou anteriormente, inclusive no Fórum Econômico Mundial em Davos: os volumes de transações de stablecoins atingindo US$ 33 trilhões em 2025. Para contextualizar, esse valor seria comparável ao PIB dos Estados Unidos e da China combinados.
A grande maioria desse volume passa por tokens vinculados ao dólar, como USDT e USDC. A Europa, apesar de ter o quadro regulatório de criptoativos mais abrangente do mundo com o MiCA (Markets in Crypto-Assets), ainda não produziu uma stablecoin em euro com qualquer aproximação da adoção comparável.
Siu apresentou isso como uma questão de soberania, e não apenas como um problema de competição de mercado. Se as stablecoins em dólar se tornarem os meios padrão para o comércio digital europeu, as ferramentas de política monetária do Banco Central Europeu tornam-se menos eficazes. As decisões sobre taxas de juros têm menos importância quando uma parcela crescente da atividade econômica opera fora da sua moeda.
Animoca jogando com a Standard Chartered
Siu não apenas diagnosticou o problema. Ele também falou sobre os próprios esforços da Animoca Brands para enfrentá-lo por meio de uma iniciativa de stablecoin co-desenvolvida com o Standard Chartered. A colaboração tem como objetivo impulsionar a inovação em stablecoins e no setor bancário dentro de marcos regulatórios estabelecidos, incluindo o MiCA.
A parceria une uma empresa nativa de criptomoedas a uma das maiores instituições bancárias do mundo. A Animoca Brands, mais conhecida por seus investimentos em jogos de blockchain e direitos de propriedade digital, tem se expandido gradualmente para a infraestrutura financeira. Já o Standard Chartered tem sido um dos bancos tradicionais mais avançados em criptomoedas, com suas próprias operações de custódia e negociação de ativos digitais.
As crescentes ambições de Viena
O Fórum Global de Ativos Digitais ocorreu simultaneamente ao Congresso VI3NNA, sinalizando as crescentes ambições de Viena como centro de políticas para ativos digitais. As discussões no fórum abordaram stablecoins, tokenização e a infraestrutura necessária para suportar o mercado europeu de ativos digitais. O momento foi deliberado. O MiCA agora está totalmente em vigor, e os formuladores de políticas europeus estão enfrentando a próxima fase: não apenas regular criptoativos, mas garantir que a Europa realmente competa no mercado que regulou.
O que isso significa para os investidores
As observações de Siu se situam na interseção de dois grandes temas atuais na criptomoeda: a institucionalização das stablecoins e a geopolítica da moeda digital. Se a projeção de US$ 33 trilhões para os volumes de stablecoins se materializar mesmo que parcialmente, as empresas que constroem as infraestruturas para essa atividade — emissores, provedores de custódia, plataformas de conformidade e os bancos que conectam a finança tradicional às redes de stablecoins — estão posicionadas para capturar enorme valor. A iniciativa Animoca-Standard Chartered é uma aposta nessa direção.
O risco a ser observado é a fragmentação regulatória. O MiCA dá à Europa uma vantagem inicial em clareza, mas se os Estados-membros individuais interpretarem as regras de forma diferente, ou se o Banco Central Europeu decidir impulsionar seu próprio euro digital de maneiras que excluam stablecoins privadas, o cenário pode mudar rapidamente. O argumento de Siu pressupõe implicitamente que as stablecoins de euro do setor privado são a resposta. Os banqueiros centrais podem discordar.


