A Strategy (anteriormente MicroStrategy) registrou uma perda não realizada de US$ 14,46 bilhões em suas participações em bitcoin no primeiro trimestre de 2026. Esse valor é proveniente de um arquivo 8-K apresentado à SEC pela empresa tesouro de bitcoin em 6 de abril.
Na data do balanço de 31 de março, o bitcoin foi negociado a US$ 82.445. Diante de uma base de custo total de US$ 58,02 bilhões, o valor contábil de todo o portfólio caiu para US$ 51,65 bilhões. Isso resulta em um déficit no balanço de US$ 6,37 bilhões. O prejuízo por ação foi de -US$ 16,53, muito pior do que os -US$ 0,11 esperados pelos analistas. Enquanto isso, o segmento de software também decepcionou, gerando US$ 111,1 milhões em receita — 3,6 por cento abaixo da estimativa consensual de US$ 117 milhões.
Novas regras contábeis amplificam oscilações trimestrais
Essas flutuações extremas remontam ao padrão FASB ASC 350-60, que entrou em vigor em 2025. As empresas agora devem registrar ativos digitais ao valor justo. Como resultado, ganhos e perdas são direcionados diretamente para a demonstração de resultados. Para a Strategy, com aproximadamente 762.000 BTC mantidos no final do trimestre, cada movimento de $1.000 no preço se traduz em um impacto de $762 milhões no balanço patrimonial.
Para contexto: no Q4 de 2025, a Estratégia registrou uma perda não realizada de US$ 17,44 bilhões. Embora o valor do Q1 seja menor, ele permanece em níveis historicamente elevados. O CFO Andrew Kang contextualizou os números ao apontar para o trimestre atual. Com o preço do bitcoin em torno de US$ 97.300, o Q2 já mostraria um ganho latente de valor justo de aproximadamente US$ 8 bilhões.
Ainda assim, a assimetria no modelo de negócios é notável. A divisão de software da Strategy gera uma receita trimestral de US$ 111 milhões. Contudo, a carteira de bitcoin, com valor contábil de US$ 51,65 bilhões, supera em 465 vezes o negócio operacional. Na prática, o negócio central tornou-se irrelevante no balanço patrimonial. A Strategy é agora um fundo de bitcoin negociado publicamente com uma empresa de software anexada.
A perda da estratégia de bitcoin não interrompe seu programa de compra
Apesar da perda, a estratégia não retardou seu programa de compras. No primeiro trimestre, a empresa adquiriu 88.594 BTC por US$ 7,25 bilhões, a um preço médio de US$ 80.929. Somente entre 1º e 5 de abril, ela adicionou mais 4.871 BTC por US$ 330 milhões — desta vez a um preço médio significativamente mais baixo de US$ 67.718.
A estratégia agora detém 766.970 BTC, representando aproximadamente 3,65 por cento da oferta total circulante de bitcoin. Entre empresas listadas publicamente, o domínio da empresa é esmagador: 94 por cento de todas as compras corporativas de bitcoin no Q1 vieram da estratégia. Em comparação, as outras 194 empresas compraram um total combinado de 4.000 BTC. Globalmente, a estratégia controla cerca de 65 por cento de todo o bitcoin detido nos balanços corporativos.
No entanto, o momento foi ruim. De acordo com uma análise, a Estratégia comprou acima do preço médio semanal respectivo em 80 por cento de suas transações semanais do Q1. Analisando apenas as compras do Q1, isso resulta em uma perda de US$ 1,25 bilhão — cerca de US$ 14.100 por bitcoin adquirido. Compradores sistemáticos aceitam esses ciclos como parte do processo.
Financiamento por meio de programas de caixa eletrônico e ações preferenciais
A estratégia financia suas compras por meio de uma rede de instrumentos de mercado de capitais. Entre 30 de março e 6 de abril, a empresa arrecadou US$ 474 milhões líquidos por meio de programas no mercado. Desse total, US$ 330 milhões vieram da classe de ações preferenciais STRC, enquanto US$ 72 milhões vieram das ações ordinárias MSTR.
Sob o chamado "Plano 42/42", a Estratégia visa arrecadar US$ 84 bilhões em capital até 2027. Isso se divide em US$ 21 bilhões cada para as ações da MSTR e STRC via ATM, mais US$ 2,1 bilhões por meio de ações preferenciais da STRK. Para o programa STRC apenas, permanecem US$ 22,65 bilhões em capacidade não utilizada. This dilution machine is just getting started.
Para os acionistas existentes, isso cria uma dupla carga. A ação da MSTR negocia 21% abaixo do nível do início do ano e 74% abaixo do seu máximo de 52 semanas. Enquanto isso, o mNAV — a razão entre o valor de mercado e o valor patrimonial líquido do bitcoin — está ligeiramente abaixo de 1x. Em outras palavras, o mercado não atribui mais nenhum premium às reservas de bitcoin da Strategy. No pico, o premium superou 8x. O que muitas vezes é ignorado: quanto mais baixo cai o premium, menos sentido faz a MSTR em comparação com a exposição direta ao bitcoin.

A aposta da estratégia em bitcoin desde 2020 em contexto
Desde agosto de 2020, a Strategy investiu sistematicamente em bitcoin. Na época, a empresa, sob o CEO Michael Saylor, começou com um investimento inicial de US$ 250 milhões e posicionou-se como uma "Empresa de Tesouraria em Bitcoin". Em 2026 apenas, a Strategy adquiriu 94.440 BTC em 13 transações por US$ 7,59 bilhões. Em todas as compras desde 2020, o preço médio ponderado é de US$ 75.644 por bitcoin.
As implicações fiscais da contabilidade por valor justo são complexas. A partir do prejuízo do Q1, surge um ativo fiscal diferido de US$ 2,42 bilhões. No entanto, a Strategy já reconheceu uma provisão de avaliação de US$ 1,73 bilhão, pois a realização permanece incerta. Além disso, a empresa espera uma provisão de avaliação de US$ 500 milhões sobre ativos fiscais diferidos do segmento de software. No total, o benefício fiscal permanece modesto.
Esses números contam uma história clara. Comprar MSTR significa adquirir um proxy alavancado do bitcoin com risco de diluição. Com um mNAV abaixo de 1x, o mercado não paga mais premium por ele. A resposta de Saylor é bem conhecida. Ele continua comprando.





