A Coldcard, um dos nomes mais confiáveis em carteiras de hardware Bitcoin, lançou atualizações de firmware que corrigem uma vulnerabilidade crítica na forma como seus dispositivos geram seeds de carteira. O problema: atualizar o firmware não resolve realmente o problema. Você ainda precisa transferir seu Bitcoin para uma carteira totalmente nova.
A vulnerabilidade, que persiste desde a versão 4.0.1 do firmware lançada em março de 2021, permitiu que as sementes fossem geradas com entropia significativamente reduzida. Em inglês: o processo de geração de números aleatórios, que deveria tornar a chave mestra da sua carteira essencialmente impossível de adivinhar, era, na verdade, muito mais previsível do que qualquer um imaginava.
O que deu errado e o que está em risco
A falha decorre de processos defeituosos de RNG (gerador de número aleatório) no firmware do Coldcard que produziram frases semente previsíveis. Para um dispositivo cuja proposta de valor inteira é “suas chaves, seu bitcoin, nenhuma outra pessoa”, isso é tão ruim quanto se pode chegar.
Os dispositivos afetados incluem os modelos Mk3, Mk4, Mk5 e Q com versões de firmware lançadas após março de 2021 e antes da correção de 31 de julho de 2026. Isso representa mais de cinco anos de geração de seed potencialmente comprometida em toda a linha de produtos da Coldcard.
As consequências não foram teóricas. Centenas de milhões de dólares em roubos de bitcoin supostamente estão ligados a essa vulnerabilidade.
As versões fixas de firmware lançadas em 31 de julho de 2026 incluem v5.6.0 para dispositivos Mk4 e Mk5, v1.5.0Q para o modelo padrão Q e v4.2.0 para o Mk3 mais antigo. Todas estão hospedadas no repositório GitHub da Coldcard em github.com/Coldcard/firmware, que inclui código-fonte completo, avisos de segurança e registros de alterações.
Atualizar o firmware é necessário, mas não suficiente
A questão é a seguinte: o Coldcard foi explícito ao afirmar que simplesmente atualizar o novo firmware não resolve o problema subjacente com as sementes já geradas usando o processo defeituoso. Essas sementes permanecem comprometidas, independentemente do firmware que você esteja usando.
A ação exigida é uma migração completa da carteira. Os usuários precisam gerar novas sementes completamente novas no firmware corrigido e transferir todos os seus bitcoin para carteiras derivadas dessas novas sementes.
Para usuários que desejam proteção adicional durante o processo de migração, a Coldcard recomenda duas estratégias de mitigação de risco. A primeira é usar rolagens independentes de dados, pelo menos 50 delas, para introduzir aleatoriedade física genuína na geração da seed. A segunda é aplicar uma frase-passe BIP-39 robusta, que atua como uma camada adicional de entropia sobre a própria seed.
Ambas as abordagens funcionam porque introduzem aleatoriedade que não depende do RNG interno potencialmente falho do dispositivo.
O paradoxo da autogestão
A Coldcard construiu sua reputação como o padrão-ouro para autoarmazenamento exclusivo de bitcoin. A empresa não suporta altcoins, não busca integrações com DeFi e posicionou-se claramente como a carteira de hardware séria para o bitcoinero sério.
A vulnerabilidade também destaca uma tensão no modelo de segurança de código aberto. O firmware do Coldcard é de código aberto e seu repositório no GitHub tem estado publicamente disponível para revisão. Contudo, esse defeito de entropia aparentemente permaneceu não detectado ou, pelo menos, não corrigido por mais de cinco anos.

