O caucus legislativo do Partido dos Trabalhadores do Brasil apresentou um projeto de lei propondo uma proibição federal total sobre jogos de azar online, elevando o que era retórica de campanha a uma legislação formal que desmantelaria o quadro regulatório construído pelo próprio governo – e colocando bilhões em receita fiscal em risco antes da eleição presidencial de outubro.
Principais destaques:
- 68 deputados portugueses apresentaram o PL-1808/2026 propondo a revogação completa do marco legal brasileiro das apostas
- A lei abrange todas as operações de jogos de azar, publicidade, patrocínios, processamento de pagamentos e serviços intermediários
- O presidente Lula não endossou o projeto de lei, apesar de ter solicitado uma proibição das apostas online na semana passada
68 legisladores tentam derrubar um framework criado por seu próprio partido
O deputado Pedro Uczai (PT-SC) apresentou PL-1808/2026 à Câmara dos Deputados na terça-feira, apoiado por 68 parlamentares do PT. O projeto prevê a revogação total de todas as leis que regulamentam as apostas online introduzidas pela Lei das Apostas do Brasil, o regime regulatório que entrou em vigor em 1º de janeiro de 2025.
A proibição proposta abrange todo o framework de jogos de azar. De acordo com o texto do projeto de lei, seria proibido “a exploração, operação, oferta, disponibilidade, promoção, publicidade, intermediação e processamento de transações relacionadas a apostas de odds fixas” em todo o território nacional. As penalidades incluem multas de até dois bilhões de reais brasileiros (aproximadamente US$ 385 milhões) e penas de prisão de dois a oito anos, com penalidades agravadas para casos envolvendo menores ou organizações criminosas. Plataformas com mais de um milhão de usuários serão obrigadas a remover conteúdo promocional de jogos de azar.
O projeto de lei não possui assinatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nem de membros sênior do governo federal. Lula disse na semana passada que fecharia as apostas online se fosse apenas sua decisão, dizendo à ICL Notícias em 8 de abril que não poderia aceitar “esse jogo descontrolado” continuando. Mas ele reconheceu que a decisão exigia ação do Congresso e que os vínculos financeiros da indústria de apostas com legisladores tornavam o cenário político incerto.
Uma revogação total colocaria o PT em rota de colisão com sua própria estratégia fiscal. A Receita Federal arrecadou 2,5 bilhões de reais em receitas tributárias relacionadas a jogos apenas em janeiro e fevereiro de 2026 – um aumento de 236% em relação ao mesmo período do ano passado. Essa receita sustenta os programas sociais e de bem-estar no centro da plataforma de reeleição de Lula.
As implicações crypto são diretas. O Brasil já proíbe criptomoedas em plataformas de jogos de azar licenciadas sob o marco regulatório existente. Uma revogação total eliminaria até mesmo essa estrutura regulada, deixando sem qualquer quadro legal e historicamente empurrando a atividade para operadores offshore não regulamentados, onde crypto é o método de pagamento padrão. O próprio texto do projeto define seu escopo como abrangendo todos os “processamentos de transações” vinculados ao jogo – uma linguagem ampla o suficiente para incluir qualquer via de pagamento, incluindo ativos digitais.
A entidade nacional do setor ANJL chamou a proposta de “grande risco”, argumentando que o quadro regulatório foi especificamente projetado para trazer atividades não regulamentadas para um ambiente controlado. Uczai apresentou o projeto como uma medida de emergência de saúde pública, afirmando que as apostas saíram do âmbito do entretenimento e se tornaram “um mecanismo para captar a renda popular.”
A eleição geral do Brasil em outubro de 2026 paira sobre o debate. O projeto de lei alinha-se ao slogan de campanha “3B” do PT, que visa banqueiros, bilionários e apostas, mas as expectativas políticas apontavam para uma regulamentação mais rigorosa, e não para a completa desmontagem. Se Lula e a liderança do partido endossam diretamente a proposta de projeto de lei ou permitem que ela sirva como posicionamento de campanha permanece a questão central.
