Autor:Francisco Rodrigues
Compilação: DeepTide TechFlow
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Durante muito tempo, o Bitcoin tem sido apresentado como "ouro digital", mas essa narrativa está a enfrentar desafios sérios devido às recentes volatilidades no mercado provocadas pela política de tarifas alfandegárias de Trump e pela situação geopolítica no Ártico. Enquanto o preço do ouro sobe firmemente e se aproxima da marca dos 5000 dólares, o Bitcoin tem apresentado um desempenho fraco.
De acordo com a investigação da NYDIG (New York Digital Investment Group), a elevada liquidez e a característica de negociação 24/7 do Bitcoin fizeram com que, em períodos de pânico, a criptomoeda se transformasse num "caixa eletrónico" (ATM) para que os investidores pudessem trocá-la por dinheiro, e não num refúgio seguro. Este artigo explora em profundidade o motivo pelo qual, perante os choques de política de curto prazo atuais, o Bitcoin perdeu para o ouro tradicional em termos de propriedade de ativo de refúgio seguro.
O texto completo segue abaixo:
Durante períodos de incerteza, o Bitcoin comporta-se mais como uma "máquina ATM", onde os investidores rapidamente o vendem para levantar dinheiro.
Pontos principais:
- Desconexão de proteção: Durante as recentes tensões geopolíticas, o Bitcoin caiu 6,6%, enquanto o ouro subiu 8,6%. Isso demonstra claramente que, em períodos de pressão no mercado, o Bitcoin continua a mostrar uma grande fragilidade.
- Efeito "caixa automático (ATM)": Em períodos de incerteza, o Bitcoin comporta-se mais como uma "máquina de caixa automático (ATM)" — os investidores vendem rapidamente para levantar dinheiro de forma rápida, o que vai de encontro à sua reputação de "ativo digital estável".
- Desalinhamento das propriedades de hedge: O ouro continua sendo a ferramenta de hedge preferida para riscos de curto prazo, enquanto o Bitcoin é mais adequado para riscos monetários de longo prazo e incertezas geopolíticas que se estendem ao longo de anos, e não apenas semanas.
Teoricamente, o Bitcoin deveria brilhar em períodos de incerteza, pois é uma moeda dura com propriedades anti-censura. Na prática, no entanto, quando as coisas se tornam críticas, ele está se tornando o primeiro ativo a ser vendido pelos investidores.
Na semana passada, com o aumento da tensão geopolítica — após Trump ameaçar impor tarifas alfandegárias a aliados da NATO devido à questão da aquisição da Gronelândia, bem como as especulações do mercado sobre a possibilidade de ações militares no Ártico — os mercados sofreram uma correção e a volatilidade subiu abruptamente.
Desde que Trump ameaçou pela primeira vez impor tarifas alfandegárias durante o processo de tentativa de aquisição da Gronelândia em 18 de Janeiro,O Bitcoin desvalorizou-se 6,6%, enquanto o ouro subiu 8,6%, estabelecendo um novo máximo próximo dos 5000 dólares.
A razão está em como cada ativo se integra no portefólio durante períodos de pressão. A negociação do Bitcoin 24 horas por dia, a sua liquidez extremamente profunda e a capacidade de liquidação imediata tornam-no o ativo mais fácil de vender para os investidores quando precisam levantar rapidamente fundos.
Segundo Greg Cipolaro, diretor global de investigação da NYDIG, embora o ouro não seja tão acessível, tende a ser retido em vez de ser vendido. Isso faz com que o Bitcoin se comporte durante períodos de pânico mais como uma "máquina de ATM", prejudicando a sua reputação como "ouro digital".
"Durante períodos de pressão e incerteza, a preferência pela liquidez predomina, e essa dinâmica prejudica muito mais o bitcoin do que o ouro", escreveu Cipolaro.
"Apesar de, em termos de escala, possuir liquidez, o Bitcoin mantém uma volatilidade mais elevada e é vendido reflexivamente com a liquidação de alavancagem. Por isso, em ambientes de aversão ao risco, independentemente da sua narrativa de longo prazo, é frequentemente utilizado para levantar numerário, reduzir o valor em risco (VAR) e desalavancar carteiras, enquanto o ouro continua a desempenhar o papel real de acumulação de liquidez", acrescentou.
O desempenho dos grandes detentores (baleias) também não ajudou.
Os bancos centrais têm estado a comprar ouro em níveis recorde, criando uma forte procura estrutural. Ao mesmo tempo, segundo um relatório da NYDIG, os detentores de Bitcoin de longo prazo estão a vender.
Os dados da cadeia (onchain data) mostram que moedas antigas (vintage coins, ou seja, tokens que não se moveram há muito tempo) continuam a fluir para as exchanges, o que indica uma pressão vendedora constante. Esta "pressão dos vendedores" (seller overhang) está a inibir o suporte ao preço. Cipolaro acrescentou: "O setor do ouro, por outro lado, mostra uma dinâmica completamente oposta. Os grandes detentores, sobretudo os bancos centrais, continuam a acumular esta metal."
Outra razão para esta desalinhamento é a forma como o mercado fixa o preço dos riscos. A atual turbulência é vista como episódica, impulsionada por tarifas, ameaças políticas e choques de curto prazo. Ao longo do tempo, o ouro tem sido considerado uma ferramenta para se proteger contra essa incerteza.
Por comparação, o Bitcoin é mais adequado para lidar com preocupações de longo prazo, como a desvalorização das moedas fiduciárias ou crises de dívida soberana.
"O ouro se sai bem nos momentos de perda imediata de confiança, riscos de guerra e desvalorização das moedas fiduciárias que não envolvem uma falência sistémica completa", acrescentou Cipolaro.
"Por comparação, o Bitcoin é mais adequado para se proteger contra a desordem monetária e geopolítica de longo prazo, bem como para a erosão lenta da confiança que se estende por anos, e não por semanas. Enquanto os mercados considerarem que os riscos actuais, embora perigosos, ainda não afectam a base essencial, o ouro continuará a ser a ferramenta preferida para protecção contra riscos."

